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Casamarela

Blog experimental, dedicado a uma ala do Palácio Amarelo de Portalegre. Verdadeira «Casa de Bonecas», onde, seguindo a tradição, há sinais e emblemas de nobreza. Assim: Casa Amarela, Cas'Amarela, ou Casamarela

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Daqui, da Cas'Amarela pergunta-se: o 'Portalegre Cultural' sumiu*?

 

O Portalegrecultural foi (!) um jornal on line, mas de há uns dias para cá, quando o procuramos, não aparece... 

Assim faz-se a pergunta que está no título, pois ao procurar um artigo nosso, o dito tinha sumido; mas também, e sobretudo o jornal que o albergara! Não se sabendo, inclusive, em que data terá sido terminado?  

Acontece que em Junho passado tinham publicado um artigo nosso que nos tinha dado imenso prazer fazer.

Fica aqui, agora com outras fotografias e outra paginação (que irá sofrendo acertos até ficar numa forma definitiva, e mais de acordo com aquilo que de início se pretendia).  Mas, em Maio de 2015 ainda está como as montras da cidade de Portalegre «em execução».

 

Interpretações e interacções Urbanas - artigo feito para o Portalegre Cultural*:

Como está patente em “Portalegre: Um paraíso desperdiçado” de Lúcia Papafina através dos sentidos todos interagimos, em maior ou menor grau, com os ambientes que nos rodeiam. Mais, pode acontecer que esses ambientes contenham elementos capazes de «energizar» dados e informações que conhecemos, ou já investigámos, como é o nosso caso.

Assim o convite para esta Opinião corresponde ao organizar do que sentimos, e as muitas ideias que nos ocorreram ao longo de um passeio no que é um corredor urbano, de enormes potencialidades culturais e turísticas, existente na cidade de Portalegre. Essa via passa à ilharga do lado Norte da Sé, na direcção Este-Oeste, e vamos percorrê-la (mentalmente) de nascente para poente.

No percurso há outros «eventos» que merecem destaque, mas razões de espaço obrigam a uma selecção. Para alguns dos casos escolhidos além da descrição do que se sente, resultante da originalidade ou beleza, ficam algumas imagens que recolhemos. Ficando ainda um mapa com a localização dos casos que nos chamaram a atenção.

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fig. 1

A via que designamos «corredor urbano» tem mais do que um nome, e terá nascido a partir de uma antiga porta do castelo – a de Alegrete. Logo nessa zona, e como indica o nome do largo, junto à entrada da cidade e da antiga muralha está o convento de Santo Agostinho. Um dos vários (seis ou sete?) que existiram na “Cidade Religiosa” de Portalegre[1]. E pensando em Religioso vem à memória a explicação de Jean Delumeau sobre o significado da palavra: vem de religare[2], com o mesmo sentido que tem na língua portuguesa, por vezes igual ao latim!

Ora se o fenómeno religioso surgiu em tempos remotos a religar – para além da morte, aos antepassados, como escreve Delumeau; já a Igreja de hoje aspira manter entre os vivos, outras ligações: pretende um ecumenismo forte e inclusivo, garantia de um contacto harmonioso entre os povos[3]. Povos que no passado (daí a «vontade de paz» da Igreja contemporânea) não prescindiam de usar distintivos e marcas de pertença às suas comunidades de origem, ou às crenças que os uniam. E tal como é difícil estabelecer analogias entre vários aspectos da mentalidade antiga e a actual, também os sinais com que os povos se marcavam, evoluíram. Por exemplo – e com isto estão-se a abreviar muitas explicações! – essa sinalética distintiva, em trajes e outros adereços (como bandeiras e insígnias militares/heráldicas) passou à arquitectura de que vamos escrever.

Deste parêntesis volta-se ao Convento de Santo Agostinho, que sendo uma obra que o PDM de Portalegre classifica como Imóvel de Interesse Público, a verdade é que quando passámos diante dele, vendo os veículo estacionados, logo nos lembrámos de uma moda que foi amplíssima (e não menos desagradável): a «casernificação» de alguns dos melhores edifícios do país, que tinham pertencido a ordens religiosas.

Assim ignoramos o que tem dentro… e reconhece-se, por vezes é um preconceito: pois em Portalegre, no mesmo dia em que fizemos o passeio que vamos descrever, também pudemos admirar o cuidado posto no tratamento do Convento de S. Bernardo. E claro que sabemos de experiência, que apesar de serem variados e muito impróprios certos usos, pode ser preferível que os edifícios estejam ocupados, do que vazios, ao abandono.

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 fig. 2

Enfim, vítimas do preconceito e da realidade que o originou, há que reconhecer a existência das boas excepções. Noutra data havemos de olhar o convento cujo patrono contribuiu para alguns ideais – e para o neoplatonismo – que o Cristianismo e a sua Arquitectura, tão bem registou. Isto é, esse platonismo contribuiu para expressões que tiveram tradução visual em imagens e iconografia riquíssima[4], que começa a rarear em cidades de génese antiga; mas que em Portalegre se pode ver, não apenas no centro histórico.

Portanto não é mero episódio o facto de se encontrarem, logo depois, algumas das imagens descritas. Ao lado do convento agostiniano, no Solar dos Viscondes de Portalegre: numa das fachadas originais que temos contactado.

Dizem que é «facializada» por ter sobre o portal largo (seria uma boca), e duas janelas do andar nobre que podem lembrar os olhos: vãos que reúnem nas suas bandeiras motivos heráldicos. Motivos – chamava-lhes Robert Smith – que em geral aparecem separados, ora um, ora outro, nem sempre juntos[5]. Em cima a bandeira é semicircular ou em leque: reminiscência das rosáceas góticas, tendo abaixo um segundo painel envidraçado, que é rectangular dividido em losangos: forma que foi uma marca do Gótico Cisterciense[6], que se chamou luz e lume.

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fig. 3A e fig. 3B

Entre as duas janelas da fachada estreita, de gaveto, que criativamente se adaptou ao local, está a pedra de armas, envolta em moldura barroco-rococó. No cimo o frontão é curvo, não chegando a completar um semicírculo, nem sendo o arco abatido que alguns referem[7]. Nas fachadas laterais, mais uma vez os vãos elegantes, bem proporcionados: neste caso com as bandeiras aos quadrados – à «meia-esquadria» – como losangos. Foi quando se percebeu que estávamos pertíssimo do Convento de Santa Clara; e sem distracções seguimos caminho, a avançar para Poente.

O já referido «corredor», ou via urbana, passa então a ser a Rua 19 de Junho, a qual sensivelmente a meio se cruza com a Rua de Elvas. Notamos então que a permanência da designação – Rua 19 de Junho – parece uma mnemónica: talvez para não se perder a noção de continuidade? Que a actual Rua de Elvas foi um corte, reconfiguração recente dada ao «tecido da cidade».

A avançar lentamente – que o interesse visual é imenso! – por aí, ainda antes do cruzamento, quando a Sul o edifício da Caixa Geral de Depósitos foi truncado, mesmo à frente, do lado Norte fica a casa que foi de D. Nuno de Sousa, também conhecida como Palácio dos Condes de Vila Real: é Monumento Nacional desde 1910[8]. As janelas altas têm a capacidade de nos transportar para outro tempo, embora não esteja lá nenhum figurante, ou reconstituição histórica, enfática, como agora se fazem. Basta a simples presença das formas decorativas para lembrar a Idade Média: já tardia e claramente a entrar no período que é comum designar Renascimento. Formas que enriquecem a cidade, arquitectónica e culturalmente, com a sensação de se estar num espaço histórico.

Mas essa sensação que tivemos é preciso dizê-lo, fez-nos evocar conhecimentos que hoje estão perdidos e há anos ficámos a saber. Referimo-nos a informações que se recebiam (directamente, ao ler) nos detalhes impressos e esculpidos das pedras dos vãos. Em suma, aquilo que é a iconografia característica de determinado estilo ou época, que guarnece a área aberta do vão. Aqui esses elementos estão lá no alto, difícil de ver ou fotografar sem que fique em perspectiva. Porém, exposta a Sul é bem iluminada, e os contrastes de luz e sombra evidenciam o labor decorativo posto no trabalho – que é comum chamar pedra lavrada. Está à volta das janelas, principalmente na parte superior do vão, em peças que aprendemos a chamar vergas. As mesmas que há milhares de anos são sinal da rectidão dos seus proprietários[9].

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fig.4B-DSCN271-30.11.2014.jpg

 fig. 4A e fig. 4B

Um dia poderemos escrever mais sobre elas, associando-as, como é impossível não fazer (ainda que só mentalmente), quer a traçados de arcos e a desenhos de vãos que estão, por exemplo, no Claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém; quer aos ideogramas que desvendámos nas pesquisas do Palácio de Monserrate.

Por agora quer-se avançar no espaço e na descrição deste corredor – tão marcado na malha da cidade antiga – já que a zona que mais nos interessa é lá no cimo, perto da Sé: no troço que depois da esquina desemboca na Rua de S. Vicente. Visto que também nessa zona, embora com “stylus” diferentes[10] são ainda os guarnecimentos dos vãos que melhor indicam a época, e a qualidade das principais construções.

Assim, a subir ligeiramente, continua-se a percorrer um canal que é estreito e alto, até se abrir na chamada Praça do Município. Aqui chegados é muito possível que o turista desprevenido – o de uma primeiríssima visita – seja dominado pelo assombro? Dependendo da luz, que haja um deslumbre! Talvez a roçar o paradoxo, que a sensação pode ser de atordoamento… E ainda surpreendido é impossível que o visitante não se pergunte: Onde estou? Que lugar é este? É Portugal, é Espanha? Será Itália? Aqui muitos hão-de querer sondar e perscrutar o sítio, olhar à volta. Inevitavelmente fazer os 360º a tentar discernir, ao mesmo tempo, quase tudo: o que está nas zonas escuras, mais fechadas, ou nas luminosas e abertas?

Logo na esquina um outro edifício interessante, em que os vãos guarnecidos de pedra (ou massa - é sempre difícil saber, mas estes são pintados), apresentam molduras ricas: formam painéis, acima e abaixo dos vãos, como «cartelas». Só que, é lamentável, os painéis envidraçados das janelas deixaram de ter os caixilhos de madeira; apenas nas sacadas (felizmente, para maior interesse visual) ainda lá estão as antigas guardas das varandas. São de ferro forjado, muito trabalhadas, formam losangos e corações. O desenho resulta de abertos e fechados por enrolamento do metal – à maneira das “rejas” espanholas.

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fig. 5

Parados, fica-se a observar, tal é a variabilidade mas também a consonância (lembra música) que os olhos recebem. Talvez outros tourists, ainda mais curiosos, circulem de olhos bem abertos, levando «o corpo atrás da visão» – a procurar? Se for um dia claro serão cada vez mais atraídos pela luz, porque o espaço se abre; e muito mais amplo do que o corredor alto e estreito por onde vinham, então as opções perspécticas que se oferecem são várias. Desde preferir avançar no adro da Sé em direcção aos portais e à fachada – cada vez mais próxima, monumental e imensa. Ou, estando ainda na Praça do Município, lentamente, continuar a olhar esse edifício, cuja composição, e mais uma vez os vãos, são igualmente eloquentes.

Depois, talvez o visitante acidental faça como nós? Porque uma coisa é conhecer a história e saber do valor dos monumentos, e outra muito diferente é percorrê-la in loco. Ser (ou deixar-se ser) surpreendido pela sucessão das obras e eventos que a cidade oferece.

Provavelmente os visitantes contornam a esquina, no lado Sul do largo, frente à antiga Câmara. Depois, nesse dia luminoso, talvez com o sol a encandear, serão impelidos a contemplar o lado Sul: o de um espaço que crescentemente se alarga. Ainda surpresos e a interrogarem-se sobre o lugar onde estão, é natural que espreitem por cima da Rua do Arco – que logo ali desce em inclinação inesperada, quase abrupta, a abrir uma nesga. Vê-se para fora da cidade, ao longe está o campo!

Dir-se-ia que esse rasgo tem o propósito de lembrar o lugar onde estamos, e afirmar – porque quem está imerso na cidade já o terá esquecido – o privilégio dos sítios altos? Aqueles que outrora, ainda naturais, dominavam as paisagens. E talvez por instantes, será (?), é dado ao visitante o poder de captar o espírito ancestral do lugar onde chegou.

Poderá lembrar-se do Augur – sacerdote da antiga Etrúria, que marcava no chão o local onde se devia observar o céu. O mesmo local que ao longo dos tempos foi sendo sempre o preferido para implantar o santuário, o templo, e mais tarde a igreja. E por instantes somos nós que nos interrogamos: mas estas informações vêm de onde? De etnógrafos, de geógrafos? O que sabemos do espírito dos lugares sagrados: um «carácter» vindo dos confins dos tempos que faz com que alguns lhes chamem locais de epifanias? Porque é que aparece este tema; onde aprendemos sobre ele, para estar consciente destas informações[11]?

Num roteiro fotográfico que agora sabemos ser fascinante, de novo olha-se à volta e observa-se o sítio do Largo da Sé: no centro está o Adro, vendo-se uma série de edifícios diferentes. Claro que o da antiga Câmara Municipal é digno de ser melhor conhecido. Porque depois de visto localmente, é desejável que através da bibliografia e daquilo que já se registou sobre ele[12], se fique a saber que em Portugal foi um dos primeiros, feito expressamente para albergar a administração de uma urbe: é esse aliás, o motivo dos seus vãos. Neste caso tratam-se de tímpanos triangulares (ou frontões), em geral considerados classizantes e discretos; porém, consideramo-los demasiado «falantes». Melhor dizendo, em nossa opinião a sua expressividade – e a vontade de transmitirem uma ideia (ou várias?) – esse objectivo ultrapassa em muito a respectiva funcionalidade.

Não fora saber-se dessa vontade ancestral, de afirmação e eloquência – por isso inclusivamente foram aplicados no andar superior – e deveria perguntar-se para que serviam. Porque, e em suma, visualmente esses tímpanos triangulares evidenciam-se imenso. Mas não se salientam, sobre cada janela, o bastante, para serem protecção contra o sol e a chuva…

Mas avancemos, pois se abrandámos a olhar o edifício da Câmara, ao lado desse, entre a chamada Rua dos Açougues e a Rua da Sé existe um conjunto (talvez formado por três edifícios?) em que se destaca o logótipo IPP – do Instituto Politécnico de Portalegre. A volumetria construtiva, e a sua aparência, superam o que existe do lado Sul. Pelo que vemos no lado Norte deste Largo da Sé, à data da construção houve objectivos de afirmação, muito claros. Embora se pergunte: estes edifícios foram construídos em que século, e para que propósito? Num postal antigo são referidas escolas: “Industrial e Primária. Superior”. Terá sido esse – para escola oficial prestigiante – o desígnio construtivo inicial? É que quem está familiarizado com a iconografia das edificações pode deduzir, erroneamente, que foram Casas Solarengas. Assim, passa-se a explicar:

Os mesmos ornamentos e iconografia de génese religiosa, em especial a que guarnece portais e janelas, por extensão também passou a distinguir os edifícios palatinos. E destes passou depois a marcar e a «dignificar», as utilizações equivalentes ao que hoje se designam serviços públicos, como é a Escola Pública[13].

Num dos casos as varandas chamam a atenção, em particular as esferas armilares soberbas, que foram fixadas de maneira invulgar. E a mentalidade funcionalista que agora todos temos obriga à pergunta: porquê aquele design?

fig.6-DSCN2448-30.11.2014.jpg

 

fig. 6   fig. 7

É verdade que o mundo está cheio de curiosidades, não só de objectos intrigantes, mas também as grandes obras, que ainda hoje, apesar de questionadas com lógicas demasiado funcionais se mantêm enigmáticas. É o que se passa com as ogivas (artesoadas) da Sé de Portalegre: a obra monumental e imensa que está diante de nós.

Será a visão desse volume que traz outras recordações? Começando por lembrar a Matriz de Torre de Moncorvo, que chegou a ter pretensões a Catedral, e nunca o foi. Ou a lembrança da Sé de Miranda do Douro que fica mais a Norte; que é igualmente grandiosa, e numa região de fronteira. Mais uma vez pergunta-se, porquê estas lembranças? Se são em terras do distrito de Bragança, tendo pouco a ver com Portalegre… Une-as o facto de haver semelhanças reais, ou o tempo de D. João III em que foram feitas?

É que a pensar nas ogivas e detalhes do interior, em perspectiva livresca (e não em passeio) então aqui seria evocada a Sé de Leiria: o exemplo que a historiografia da arquitectura portuguesa associa à Sé de Portalegre. Porém, apesar destes desvios, «deveras intelectuais», há que continuar o passeio feito (ou a fazer) ao vivo que delineou este relato.

Portanto relembra-se o Largo onde estamos – quadrilátero irregular e as construções que o delimitam. Se olharem para nascente, já se indagou, vêem o Palácio Andrade e Sousa[14], que apresenta uma alta cimalha de pedra; ao meio uma pedra de armas e para cada lado três vãos, de vergas rectas. Janelas de sacada com varandas e grades de ferro – de balaústres rectos, fixadas aos guarnecimentos de pedra. Estes têm dimensões de fazer inveja a qualquer obra contemporânea! E se do tempo passado as pedras ficam envelhecidas e «rusticadas», a parecerem antigas, já no andar inferior, no início da Rua do Arco, aí uma janela de peito é ladeada por dois óculos. Além de ser um apontamento delicado, aparentemente as pedras são mais recentes? Mais abaixo há outras portas e uma janela, cujo aspecto e desenho, se não existirem registos escritos, não se capta a história.

fig. 8A   fig. 8B

O mesmo se aplicando ao lado Sul do Largo/Adro da Sé: as casas são de menores dimensões, intuindo-se que não eram ricas? Há um contraste que obriga a pensar neste arranjo urbano: ou não houve arranjo, apenas uma «adição organicista»? Claro que os edifícios cumprem uma normal função de acompanhamento, necessária nos conjuntos onde exista um Monumento Nacional: e esse monumento é a Catedral.

Pelo lado Norte pode-se falar de uma perspectiva cuidada, que dá sequência às vias percorridas. Aí, em geral, os edifícios são de maior porte, mas em toda a envolvente nenhum é tão alto como a Arca que uma normal Catedral do século XVI ainda pretendia ser[15]. Embora o adjectivo «normal» pareça um termo pouco adequado, porque como todos supomos a criatividade artística não obedece a normas; no entanto, a verdade é que em todas as épocas – e não apenas depois do Concílio de Trento, como é mais conhecido – a Teologia fornecia as normas. Isto é, definia modelos e os temas mais decorosos para transmitir a doutrina, que em simultâneo era vista como ornamentação[16].

E neste percurso fotográfico, em que várias vezes se abriu a teleobjectiva, agora socorremo-nos doutra analogia tecnológica: é chegado o momento de percorrer, qual scanner, a fachada da Sé. Para, com “compassos nos olhos” mirar e remirar as diferentes superfícies das paredes. E ao parar é tempo de «reparar» na composição da fachada, que é mais do que a tampa frontal duma caixa (ou Arca), que fecha do exterior as cinco naves da catedral.

fig. 9

Aqui, apropriadamente, pode usar-se a palavra contemplar, já que foi essa a origem do termo: o entrar em sintonia – ao sentir pela visão – os elementos significantes de um templo. E desde a largura das pilastras, à forma dos vãos – em especial os portais; ou em altura, a partir do registo do número de pisos, que pelo exterior é de 3 ou 4… De qualquer modo, a verdade é que essa tampa está longe de ser transparente, a deixar ver um interior cuja beleza ultrapassa a do exterior.

Entrámos, mas descrever seria infindável. Melhor do que as palavras são as imagens, e talvez a descrição deste espaço rico e complexo já esteja feita, num trabalho de Júlio Gil. E além dessa descrição completíssima, o autor informa ainda que houve sucessivas campanhas de obras, a durar 200 anos.

fig. 10

Ao aproximar-se o fim do caminho que quisemos fazer – e com ele o fim de um fio condutor – neste ponto, porque constam na explicação de Júlio Gil expressões como “...molduração maneirista”, ou “…frontões classicistas, curvos e triangulares”, há que olhar. Pois como nós (arquitecto), também se ocupou dos vãos: só que não vemos nesta fachada – de frente ou nos recessos criados pelas torres altíssimas – não se vêem frontões “curvos e triangulares”. Será engano nosso, ou o autor descreveu o que é mais comum, automaticamente?

É que se no edifício da antiga Câmara Municipal só há frontões triangulares, sobre vergas rectas; e se na Sé Catedral esses frontões são apenas curvos (diferente do que Júlio Gil escreveu). Já no que é para nós o mais bonito dos edifícios da zona, nesse destaca-se a alternância entre frontões triangulares e curvos – como em geral acontece nas obras da época. Relembre-se que logo de início alertámos para o valor que desde tempos imemoriais sempre foi dado às vergas; ou se preferirem, à parte superior do emolduramento dos vãos.

Será que outros visitantes ocasionais, ou até os locais que passam, descobrem e sentem o mesmo que sentimos? De sensibilidade apurada pelo conhecimento próximo, será que os portalegrenses valorizam estes valores culturais da cidade? O que, note-se, valorizar não é o mesmo que gostar (afectivamente). É verdade que acima escrevemos «bonito» ao mencionar o edifício do actual Museu Municipal de Portalegre, porém parece escasso. Deverá talvez falar-se em Beleza e usar o adjectivo Belo.

Ou seja, ao retomar o sentido iniciado na Porta de Alegrete, que vamos terminar na Porta do Crato; estando no arruamento que tomou o nome de José Maria da Rosa, e em tempos foi (ou é ainda agora?) o Largo do Paço. Nessa zona, passado o edifício do Instituto Politécnico de Portalegre, onde à esquerda estão as paredes muito altas da Catedral (com janelas que são óculos), e à frente o Paço Episcopal; aí oferece-se ao visitante uma Vista clássica. Um efeito estudado, claramente, no posicionamento do portal. Lembra até a arquitectura de interiores, a ponto de introduzir a noção de espaço doméstico, e de se pensar que é um território privado (quase um pátio).

fig. 11

Será que quem passa goza verdadeiramente a qualidade deste espaço urbano? Agora com um destaque para o antigo Seminário Diocesano, que está à direita. Será que sente a beleza do conjunto: de um arranjo urbanístico que, seja qual for a sua história (?) aparece inteiro, e não feito de adições. Saberão que este “design arquitectónico” foi – na época em que se construiu, não apenas em Portalegre mas na Europa da Contra-reforma (quase em simultâneo!) – o resultado de um trabalho de criação muito erudita? É que as «caixas que os edifícios são», mais ainda os vãos que nelas se abrem, neste caso terão mais de 400 anos. Claro que a antiguidade só por si (como se o tempo fosse invólucro) não confere qualidade. Mas o muito tempo passado era lento, mais do que na actualidade: sobretudo sedimentador dos valores e tradições que vinham de trás, as que persistiam em instalar-se. Mais, ao contrário do que durante décadas foi divulgado pela historiografia, o “corte abrupto” do Renascimento pouco terá alterado (se é que existiu corte?) como Jacques Le Goff defendeu[17].

No século XVI, e seguintes, em que Portalegre teve grande pujança, aquilo a que agora estamos a chamar “design arquitectónico”, viesse de construtores ou mais do clero (?), foi capaz de produzir imagens e os detalhes mais convenientes para a arquitectura de uma cidade cristã. Sim, referimo-nos aos detalhes que deviam obedecer a uma iconografia específica, que era lida de modo Ideográfico: i. e., como hieróglifos. Imagens que transmitiam ideias e valores, próprios de Portalegre e de Portugal. E se hoje temos que o reconhecer que o país é periférico e a região em vários aspectos é duplamente periférica, nessa data – e o conjunto monumental que se está a descrever é uma óptima prova desta ideia – então a cidade de Portalegre vivia tempos prósperos, de modernidade. Actualizada nas grandes obras que se implementavam, participava igualmente (ou mais do que alguns lugares que entretanto se desenvolveram) dos valores vindos de Itália e de Roma.

Alguns podem admirar-se desta reflexão, mas ocorreu há um ano. Se agora fomos buscar estas ideias, é apenas para contar que foi Florença, Giorgio Vasari e Itália que por instantes, espontaneamente em Portalegre, habitaram a nossa mente… Poderia ter sido o Paço de Vila Viçosa, bastante mais perto e de data pouco anterior, mas não foi... Porquê?

Terão sido a surpresa e o encanto de encontrar um cunho tão italianizante? Ou foram os contrastes luminosos entre zonas claras e sombrias, que contribuíram para essa noção, levando-nos à fonte das primeiras soluções, surgidas em Itália? Claro que não sabemos responder, mas há uma verdade: por muito «limitada» que pareça aos leitores – e podem sorrir… – é que há quase uma década que frontões curvos e triangulares são objecto da nossa curiosidade!

fig. 12A fig. 12B

fig. 13

Essas formas estilísticas são rotações e deformações, quiçá propositadas (?), e objecto da criatividade transformadora de autores de vulto como por exemplo Léon Battista Alberti, Piero de la Francesca, Rafael, Miguel Ângelo. Pelo que assim, mais ou menos encobertas (seria secreto, à maneira de Dan Brown?) as formas heróicas das fases anteriores[18] – a mandorla e o losango do Românico-Gótico – continuaram ligadas aos vãos.

Não é este o lugar para ir mais longe no tema, e os portalegrenses devem preferir informações de Frei Amador Arrais, que em 1581 Filipe I fez bispo de Portalegre; sobretudo porque os meios de hoje dão informação que era exclusiva dos eruditos, e agora com essa informação chega-se a novos objectivos:

  1. Ao juntar dados interdisciplinares conhece-se melhor o passado.
  2. O passado é a História, que permite compreender o futuro!

Assim, do impulsionador do primeiro Seminário Diocesano de Portalegre – Frei Amador sabe-se do seu dinamismo e qualidades de grande pedagogo. Alguém que, imbuído do espírito da Contra-Reforma[19] construiu uma obra que ainda encanta pela simplicidade formal e proporções. Estamos a referir-nos ao edifício do actual Museu Municipal cujas janelas nos fascinam; as mesmas que estão noutra escala nos vãos dos Uffizi, em Florença. Mas também estão retóricas e enfáticas nalguns dos melhores edifícios do país: desde o Terreiro do Paço, no antigo Torreão do Terzi, aos novos Torreões (pós-terramoto) da Praça do Comércio. Ainda em igrejas como S. Vicente de Fora, no Convento de Mafra...

fig. 14

Queremos terminar com a imagem que melhor o resume todo o passeio: obtida na Porta do Crato, com o arco a emoldurar a fachada poente. Apesar do recorte, a simplicidade da composição sai valorizada.

Quanto a passeios, parece-nos que em Portalegre, com mais ou menos divagações – porque a cidade é riquíssima e culta, e portanto exigente – parece que há outros roteiros, igualmente ricos. Haja visitas!  

  1. 06. 2014

Glória Azevedo Coutinho

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[1] Jorge Rodrigues e Paulo Pereira, Portalegre, Editorial Presença, Lisboa 1988, p. 27.

[2] Jean Delumeau, Des Religions et des Hommes, Le Livre de Poche, Paris 1996, p. 9.

[3] A ideia de “religar” em Religião é muito abrangente. Também passou à Arte através da articulação de círculos e figuras geométricas que aparecem entrelaçadas de vários maneiros. Como explica Vítor Bento (sobre a Ética) a laicização mudou comportamentos. Ver A religião pode salvar a economia? Diário de Notícias, Lisboa 31.05.2014, pp. 4-9.

[4] Santo Agostinho descreveu Deus como um círculo, o que foi ampliado. Inúmeros detalhes construtivos reúnem círculos, triângulos, quadrados, octógonos, etc. A cidade antiga de Sana (no Iémen), ou o Centro Histórico do Porto devem a esses detalhes a inclusão na Lista do Património Mundial da Unesco. 

[5] No Palácio Fronteira (Lisboa) há vãos com bandeiras em leque, e no piso térreo janelas altas (parecem elípticas) com losangos. Motivos heráldicos cuja presença na arquitectura doméstica «falava» pelos proprietários. 

[6] Na sobriedade (quase iconoclasta) de Bernardo de Claraval, o losango era motivo de Contemplatio, razão porque é muito frequente nas superfícies das igrejas. Ver Marie-Madeleine Davy, Initiation à la symbolique romane. Flammarion, Paris 1977, pp. 208-210.

[7] Manuel da Costa Juzarte de Brito, Livro Genealógico das Famílias desta Cidade de Portalegre, Media Livros SA, Tipografia Peres, Lisboa 2002: Palácio do Visconde de Portalegre, p. 938.

[8] Idem, op. cit., p. 923.

[9] Ver Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys L’Aréopagite. Trad. Maurice de Gandillac, Éditions Montaigne, Paris 1943, p. 240.

[10] Estilo (artístico) é o desenho, vindo o termo de objectos pontiagudos – stylus – usados para riscar.

[11] Regina Anacleto em Arquitectura Neomedieval Portuguesa, Lisboa (v. I, p. 60) explica a veneração dos locais altos. Antes existia a igreja de Santa Maria do Castelo, que D. Julião de Alva escolheu para Sé.

[12] Ver A Cidade, Revista Cultural de Portalegre, nº 10 (Nova Serie), Portalegre 1995, pp. 22-24.

[13] É agora difícil compreender, mas houve uma lógica inicial, para o uso da iconografia sagrada nos Palácios. Relaciona-se com a noção da Origem Divina do Poder do rei (ou o dos nobres – senhores feudais). Por extensão, os ditos «serviços públicos» tal como o rei serviam o povo, e usavam as mesmas imagens.

[14] Idem, Manuel da Costa Juzarte de Brito, op. cit., pp. 943-944.

[15] Para Blaise Pascal que viveu no século XVII a igreja era a barca protectora do dilúvio. Dicionário de Símbolos, p. 116. Acontece que desde o Livro do Génesis (I Livro da Bíblia), e sobretudo, depois de no século XII Hugo de S. Victor ter escrito os tratados De archa Noe, como sabemos esse foi o modelo, alegórico e construtivo, para a igreja Românico-Gótica.

[16] Decorativo e decoroso – sinónimos de decente, conveniente. Ver ainda Catecismo da Igreja Católica, As Santas Imagens e referências ao II Conc. de Niceia (787), Gráfica de Coimbra, 1993, p. 266.

[17] Jacques Le Goff, O Imaginário Medieval, Editorial Estampa, 1994, pp. 35-41.

[18] Michael Lewis citado em Monserrate – uma nova história, Glória Azevedo Coutinho, Livros Horizonte, Lisboa 2008, nota 317, p. 187.

[19] Fica-se a saber que é visto como grande pedagogo, ou ainda que “...está fortemente marcado pela retórica e pelo espírito do período da Contra Reforma...”

http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/3906/1/A%20exegese%20b%c3%adblica%20nos%20Di%c3%a1logos%20de%20Fr%20Amador%20Arrais.pdf. Informações vindas da Literatura e de Joaquim de Carvalho, antigo professor de Coimbra:

http://www.joaquimdecarvalho.org/artigos/artigo/110-Frei-Heitor-Pinto-Frei-Amador-Arrais-Frei-Tome-de-Jesus-/pag-3.

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*Note-se que o Portalegrecultural era um jornal dos alunos de Jornalismo e Comunicação do IPP: http://www.esep.pt/novos_cursos/apresentacao_cursos.php?id=5

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