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Casamarela

Blog experimental, dedicado a uma ala do Palácio Amarelo de Portalegre. Verdadeira «Casa de Bonecas», onde, seguindo a tradição, há sinais e emblemas de nobreza. Assim: Casa Amarela, Cas'Amarela, ou Casamarela

Casamarela

Blog experimental, dedicado a uma ala do Palácio Amarelo de Portalegre. Verdadeira «Casa de Bonecas», onde, seguindo a tradição, há sinais e emblemas de nobreza. Assim: Casa Amarela, Cas'Amarela, ou Casamarela

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Esta «Maluquice» impensável: Qual brainstorm imparável

Comecemos pela palavra BRAINSTORM e o seu significado. Aprendemo-la bem cedo, talvez ainda no Liceu ou já na ESBAL? E no IADE - aí muitas vezes recorreu-se a ela - para tentar explicar  a alunos de Metodologia como, frequentemente, podiam nascer ou ter nascido as ideias.

Porém, muito depois, não fora a nossa ida à FLUL e teríamos perdido - aquilo que é para a Arte - uma fonte inesgotável.

E este post fica aqui, não indo para algum dos outros blogs, porque foi em Portalegre, no Museu da Tapeçaria, que pude reparar em detalhes de um desenho de Maria Keil. Como se poderá notar nas imagens seguintes, alguns grafismos são muito semelhantes

extractp-desenhoMariaKeil(2).jpg

O que diríamos serem zigzagues - insignificantes - por exemplo debaixo da assinatura de um rei (!) afinal estão em muitas outras imagens, como as que se «pescam» num outro post escrito este verão*.

Ideograma-PINTURA-DIOGO CONTREIRAS-RENDA(4).jpgIdeograma-trajeD.SEBASTIÃO-MNAA(4).jpg

FB.VÍTOR SERRÃO-27.06.2021-4.jpg

D.Sebastião-mnaa-EXCERTO-ampliado-B.jpg

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2019-MariaKeil-tapeçaria-portalegre(2).jpg

No fim temos que concluir que as nossas fotografias aos desenhos de Maria Keil, que vimos vários, aparentemente repetidos (mas havia diferenças entre eles...) no Museu de Portalegre. É que, esses desenhos não foram exactamente, aquilo que chegámos a julgar - doodles e rabiscos, aparentemente sem sentido - como aliás pode parecer um brainstorm... 

Por detrás houve um esforço, e por isso os vários desenhos que precisou de fazer : tendo em vista, muito provavelmente, a expressividade das imagens que ia criando, mas a pensar, sobretudo, na qualidade final, de uma tapeçaria enorme.  

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* E neste caso com Iconografia trazida de um outro post de Vítor Serrão: o «negacionista» que é cada vez mais o nosso provedor daquilo que ele próprio nega...

Só pode ser divertido! 

Muda, mesmo que só um pouco..., pois se até agora se achava que os caracóis das grades eram in-significantes

Pelas nossas pesquisas Iconográficas, relativas à iconografia cristã*, até agora ainda nada tinha aparecido que informasse que podia haver algum valor significante, nos ferros forjados das janelas de sacada, do Palácio Amarelo de Portalegre.

Porém, mais uma vez, o impensável aconteceu.

Num livro que há alguns anos comprámos, e em que se fala de Ideogramas (além de símbolos e sinais), há muito para explorar. Principalmente porque os referidos sinais, sendo quase incontáveis, por isso foram ordenados segundo aquilo que melhor pareceu ao seu autor.

E neste, como noutros casos, parecerá até que é uma arrumação aleatória. No entanto, a essas imagens - nascidas na polissemia medieval - é verdade, foram-lhes atribuídos significados (teológicos) de forma aparentemente quase infantil. Ou «encadeados uns sobre os outros», como por exemplo escreveu o cardeal Henri De Lubac**.

A imagem seguinte é portanto um simples apontamento deste assunto que se quer aprofundar 

mneme.jpg

IMG_20210810_203022-c.jpg

*Iniciadas depois de 2002 ao estudar o Palácio de Monserrate em Sintra

** Autor de: Exégèse médiévaleles quatre sens de l'Écriture. Cerf 1993

Uma transição lenta que temos esperado venha a acontecer

Por isso se pergunta:

imagens_monserrate-casaAmarela.jpg

Claro que a questão tem resposta:

Sim, com muitas das informações adquiridas, Monserrate permitiu - e continua a permitir agora - compreender algumas das soluções, ditas (simplesmente) ecléticas, do Palácio Amarelo.

E em Portalegre, no centro da fachada uma Fan Window , mesmo que apenas esboçada (acima) remete-nos para a Arquitectura Georgian, que é como que o «substrato arquitectónico» da casa de Sintra.

'Bora lá ser Cegonha...

... e viajar, "à vol d’oiseau"?

 

Sempre que oiço esta expressão "à vol d’oiseau" , tenho que me lembrar da Professora da UCP - do CEHR - que anteviu os meus estudos (de Doutoramento) como uma travessia "à vol d’oiseau"  pela Iconografia da Arte*. Um trabalho que ela achava utilíssimo e portanto incentivou a que o fizéssemos.

Só que, a expressão serve para outras situações, concretamente para aquelas em que terá nascido. Isto é, quando algum tratadista francês, como supomos vagamente (ou até já lemos sobre isto...?), teve a noção que certas perspectivas aéreas seriam a possível visão de um pássaro. 

VillaeRomana.jpg

 

 

Desta vez, imaginativamente, fizemos de drone (ou de cegonha, que é um animal mais comum na planície alentejana) voando sobre montes abandonados, os quais, daqui a alguns anos** serão confundidos, facilmente, com as antigas villae romanas 

 

 

*Naturalmente, e especificando algo mais, para os que possam precisar dessa informação: a Arte que Martin Kemp - em História da Arte no Ocidente - dividiu por períodos, minimamente lógicos e coerentes; sendo que ao segundo período, Parte 2 deu esta designação muito significativa: Igreja e Estado: O Estabelecimento de Uma Cultura Visual Europeia 410-1527.

**Talvez não sejam precisos séculos...

NUMA CASA DE ESTAR E (aí) SER FELIZ*

Apesar de, como se tem dito, aqui falte muita coisa – que consta normalmente nas listas que definem os parâmetros de conforto – há no entanto muitas outras vantagens de estar em Portalegre:

Que vão de silencio ao ar puro que se respira, ao desafogo, à localização e vistas, ao ambiente cultural riquíssimo – já que ao virar da esquina nos podemos sentir em Itália. Ou, por exemplo, nas páginas de algum compêndio de História da Arte. Tal é a qualidade e quantidade de imagens, de um  formulário arquitectónico antigo, em que por aqui se está imerso.

O tempo, cronos, e os seus sinais - por vezes quase intocados - envolvem-nos**.

Indo das pedras, perpeanhos que alguém nos disse que podem ter vindo da antiga Ammaia, para construir as bases do que foi o castelo de Portalegre; mas chegando também às árvores e aos frutos. Que, idem aspas, essas árvores apesar da antiguidade que têm. ainda vão dando frutos saborosos e únicos

Portanto, e antes que a chuva os fizesse cair, lá fomos apanhá-los 

IMG_20210908_152057.jpg

Da figueira cujas folhas podem ser as maiores de Portalegre? Além de - provavelmente (e como nos têm dito) - ser um tipo de árvore que já não é muito comum encontrar-se...

Terá 100, ou até mesmo 200 anos?

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Assim ontem oferecemos figuinhos de capa rota, ou roxa, como são estes, experimentando doces e purés, para comer com requeijão, e tudo o resto que se queira.

E sobre esses petiscos, on va voir !, já que nos espera uma outra tarefa: tentar escrever a história desta Casa

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*Embora talvez não tenha sido sempre assim particularmente para a infeliz (como se pode supor...)  Maria Eugénia Romo de Castro Ataíde que viveu entre 1853 e 1902, a menina que, aparentemente, se terá «negado» a ser Viscondessa de Abrançalha.   

**E hoje também o tempo da metereologia. Pois a mudança de estação a fazer a passagem do calor seco para o húmido, e para temperaturas mais baixas, carrega o ar de humidade relativa, dando-nos a sensação de estar num clima tropical.

A SUSTENTABILIDADE DO PLANETA TERRA, e «um muito mais» para se pensar  a propósito de sonhar e/ou realizar

É que acabei de ouvir – hoje -, talvez há pouco mais de uma hora?, sobre as «péssimas condições»  em que estou aqui, em Portalegre, numa casa que foi em tempos das mais afamadas; e em que, como se diz num livro*, foi espaço de lazer “...dos ricos da cidade...”

Image0025-b.jpg

Sim, e a afirmação ouvida é verdade; aliás as duas coisas são verdade. A casa foi isso, assim como as condições em que se está, connosco a usá-la, podem ser vistas como as de um ermita.

Mais, no comentário que ouvimos, constavam  para comparação, presídios, casernas,  e até  instalações da tropa. Onde, para o tal «comentador», as condições não são tão extremas quanto as que aqui existem...

É então que me lembro (e me pergunto) sobre o que ficou no título:

Será que as pessoas de facto têm a noção de tanto, de muito excesso e do muito supérfluo (para lá do mais essencial) com que em geral todos  vivemos?

Quer nas condições de conforto**, quer nas tralhas e bibelots (ou nas centenas de livros - que são as nossas queridas bibliotecas privadas!). Tralhas de que enchemos os nossos cenários de vida, que são as casas em que habitamos...?

Será que não são possíveis vidas normais e ricas; i. e., interessantes e muito confortáveis, mas tendo menos? Será que não temos conhecimento de realidades extremas a que poucos ou nenhuns acodem, como este link e suas reflexões nos mostra, ao falar de casas que são comparáveis a verdadeiros buracos?

É então que vem a propósito a nossa profissão, e as muitas diferentes maneiras de a exercer: Nem sempre a fazer palácios, ou a trabalhar para as classes altas. 

E para além disso, quando se projecta, também se sabe que nem todos os projectos, ou as respectivas obras, se realizam: pois estas têm - e ainda bem - ora doses de realidade, ora doses de sonho.

E isto, o estar aqui, não é resiliência. O bem-estar não tem a ver com o ter. É que para se Ser é melhor começar pelos valores imateriais.  

O Ser também se faz - e sente feliz -, com várias e diferentes actividades. Ou, será que nunca ouviram falar de dopamina?***

Em suma, pode parecer o contrário?, mas o que aqui temos - além de história, cultura e  património impregnado de passado - pode ser visto como um luxo!

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*Cujo autor e título são: Domingos Bucho, Portalegre Visita Guiada (bilingue), Edição da CM Portalegre, Portalegre 2020. A página e os destaques ampliados vêm desse  livro. 

**É que se aqui temos um certo deficit de conforto, pelo menos temos imenso espaço – o que também é conforto, designado desafogo - como sabe bem, quando se está de férias...

***E sobre esse neurotransmissor encontrou-se esta informação.

E no Fb em 29.08.2021 acrescentou-se:

Ainda não esquecemos o homem de letras, que há dias encontrámos em Portalegre. Tanto mais que nos desenhos dos «caracteres alfabéticos», o autor pôs algumas intenções, e, claro, os maiores cuidados

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OUTRA foto para ser vista em ampliação

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Por fim, o assunto que mais nos interessa ampliar, neste caso não tanto como ICONOTEOLOGIA - visto que desconhecemos (se as houve?), algumas ideias associadas aos «floreados e enrolados» nos ferros forjados das chamadas 'rexas' ou 'rejas' de que escreveu Luís Keil, em 1943, no Inventário Artístico de Portugal, vol I, Distrito de Portalegre.

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Na verdade os referidos trabalhos de metal aparecem-nos como elementos funcionais - dividem espaços, protegem, etc. - mas, para além disto, nas suas formas, não se pressente qualquer valor significante, que esteja para além do ornamental

“Encounters”: que neste post são diálogos entre obras de tempos (e tipos) diferentes

Daqui, da Casa Amarela em Portalegre partimos à descoberta.

Quer da própria Casa conhecida sobretudo por Palácio Amarelo – cuja descrição mais completa (e a melhor, pelo menos que se saiba?) está no Livro Genealógico das Famílias desta Cidade de Portalegre*. Mas também à descoberta dos detalhes arquitectónicos, e dos ornamentos muito específicos, de uma obra que tem características únicas.

E entre outras artes, nesses detalhes praticamente irrepetidos (mesmo que existam semelhantes feitos séculos depois); entre esses, é verdade, tem sido dado maior destaque, pela originalidade, aos trabalhos da Arte do Ferro, os quais foram descritos por Luís Keil em 1943, no Inventário Artístico de Portugal:

“Ferros trabalhados tão característicos do Alto Alentejo decoram as grades dos pavimentos térreos ou as varandas dos andares nobres” 

Algumas vezes estes são conhecidos por rexas, mas é mais comum a palavra “rejas”:  

É a designação dada a um tipo de trabalho em que o malhar do ferro, a frio e a quente, foi por aqui, desde o século XVI, uma actividade relevante. Implantada no interior do país, na região transfronteiriça, como agora dizemos; ou, nas palavras de Luís Keil:

“... é possível, senão provável que as reminiscências do pais vizinho influíssem na arte do ferro nesta região, da Andaluzia e da Estremadura espanhola, os exemplos serão muitos e bons e as afinidades manifestas.”

Foi por isto mesmo, quando andando nós com os ditos trabalhos de ferro forjado na cabeça, assim como, com os desenhos e com a iconografia que está em grades de Portalegre (a mesma que, quase paradoxalmente, também aparece em trajes reais**). Foi assim - com este espírito, e com estas ideias - que num passeio fotográfico tão recente, nos deparámos com “Um Leitor de Portalegre”.

Claro que o fotografámos, e logo ali ficou baptizado “Leitor de Portalegre”, em função disso que parece ser

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Completamente alheado da envolvente, e tão absorvido como está na leitura de um dos seus livros, que, parece, talvez nem ele tenha dado pela nossa curiosidade.

Curiosidade vinda do facto (daí o espanto!) de também ele ter um traje falante.

E ainda por cima, coincidência, também de metal a ponto de lembrar - trazendo à mente - o retrato de D. Sebastião, e o que dele escreveu J.-A. França***.

Insiste-se: claro que esta obra do século XXI também é, propositadamente - pois tenta sê-lo, como é evidente - «um traje falante».

Embora neste exemplo a que chamamos «leitor portalegrense», já não estejam os ideogramas antigos, com que os reis eram sempre representados.

Aqui, e porque esses ideogramas são  vistos hoje como formas insignificantes; assim, para poder aumentar algum sentido significante, ou se poder entender/ler alguma mensagem? – o fato de que está vestido o tal leitor, está repleto de letras. 

Letras que formam palavras, que nos dão pistas. Quase como uma «charada»:  i. e., com a obra a exigir esforços razoáveis de interpretação.

 Ou, fazendo a analogia com as obras medievais (de que escreveram Henri De Lubac e outros teólogos), são obras que exigem do leitor algum raciocínio: dir-se-ía, quase como «exegeses»...    

Não sabemos ou captamos o seu sentido exacto, mas, que importa? Se consegue ter força, ser referência e marco visual? Depois, e porque está à nossa escala, vai interpelando os que passam.

O bastante para que se fique a pensar nela (na dita obra), e a tentar desvendar aquilo que pode ter estado na cabeça do autor.

E no fim outras perguntas:

Será que os “Encouters” do título se lêem? Será que há pontes e pontos de diálogo? Ou, a existirem, é só na nossa cabeça?

É que na última fotografia (abaixo) na guarda da varanda está um dos vários ideogramas que existe no retrato de D. Sebastião do MNAA. E a penúltima é um exemplo dos trabalhos em ferro de que Luís Keil escreveu: mas transposto - desde que data? - para protecção e decoração da porta de um restaurante.

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* Ver op. cit., pp. 931 a 934, texto por Diogo Gaspar e Nuno Morais.

** Como acontece num retrato de D. Sebastião, que continua a interessar-nos e do qual já escrevemos alguns posts (mas ainda incompletos).

*** Segundo J.-A. França, o retrato de D. Sebastião do MNAA, a que nos referimos, foi encomendado em 1571, a Cristóvão de Morais. É “... um dos bons retratos maneiristas (...) com o luxo da sua armadura finamente tauxiada de ouro...” Ver O Retrato na Arte Portuguesa, de José-Augusto França, Livros Horizonte (p. 35).

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