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Casamarela

Blog experimental, dedicado a uma ala do Palácio Amarelo de Portalegre. Verdadeira «Casa de Bonecas», onde, seguindo a tradição, há sinais e emblemas de nobreza. Assim: Casa Amarela, Cas'Amarela, ou Casamarela

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A tentar restaurar...

A tentar restaurar paredes que há mais de 200 anos (pelo menos serão de 1803, podendo ser ainda do século XVIII, de alguma campanha de obras anterior...?). Paredes que foram pintadas sobre base que ainda estava fresca, massa de gesso ou cal.

Ou seja, há que o perguntar, como é possível que em meados do século XX*, talvez mesmo bastante depois de 1970, alguém tenha querido esconder 30-40m2 de paredes pintadas à mão? Num trabalho que, agora, estando a replicá-lo e usando os simples marcadores ou as canetas actuais (para «despachar» o mais rápido possível) ainda assim é demoradíssimo!

E não estamos a pintar a pincel, folha-a-folha, e em forma gotas, como se vê o trabalho foi feito.  Agora a tarefa de recuperação é, sem dúvida, hercúlea mas mais rápido é impossível...

Terá valor, vale a pena estar a fazer isto??? Lembra o Château de Gudanes, como há um ano nos disseram.

E é porque se prevê lentíssima, que se pensou (enquanto o tempo passa e para um quotidiano tornado menos agreste e um pouco mais ameno), de acordo com a antiga ideia de decoração** -, que pelo menos nalguma zona vamos colocar o padrão inicial da salinha mais trabalhada,  a qual, como pensamos, terá sido também uma das mais bonitas deste palácio de Portalegre.  

Portanto seguem-se algumas fotografias dos trabalhos que vão estar (sempre e demoradamente) em curso... Com a descrição do espírito com que se vão fazendo: devagaaaaaar, de... vagariiiiiiinho, que está calor no alto-alentejo...

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Acima luz tangencial para acentuar as diferentes camadas de tinta, o bisturi para raspar e descascar, a fim de conseguir atravessar as camadas e as películas de tinta plástica

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Exemplo dos maus tratos dos inquilinos: Durante cerca de 40 anos a própria edilidade portalegrense (!) manteve aqui uma das primeiras bibliotecas da Gulbenkian. Até se mudar para o Convtº de Sta Clara onde está agora.

Mas depois vieram outros serviços da CM, sempre sem se lembrarem (ou que lhes ocorresse???) a qualidade Patrimonial e Cultural do «contexto» em que estavam.

Por fim, e como veio a Crise, em 2011 acharam que já não queriam mais a Casa que com o máximo empenho durante décadas tinham ajudado «a tornar numa ruína»...

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Levantamento do padrão, claramente romântico, daí acharmos que pode ser anterior a 1803 (?)

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Por fim, e para acrescentar romantismo, tudo isto também nos lembra a história de D. Maria II, que mostra não só o muito (IMENSO MESMO !!!) que Isabel Stilwell teve que investigar, como, ainda por cima, apresentar aos leitores: num romance em que a base histórica tem que bater certa, sendo verosimilhante com o que se passou.

E o que se passou, como se lê, não foi pouco! Sobretudo, pode-se dizer, o que todos eles sofreram, mesmo que fosse em festas oficiais, ou até nos bailes!

Por isso é um romance todo ele a querer combinar os factos (históricos) com uma plêiade de sentimentos, infindável e típica do que caracterizou o romantismo (e o nosso padrão pintado em paredes de Portalegre)

Mais: se se diz, e será verdade, que D. Pedro de Alcântara (neste caso D. Pedro IV) nasceu e morreu no mesmo quarto do Palácio de Queluz; o que pode parecer muita quietude, na verdade a sua vida foi tudo menos isso! É que nunca esteve quieto.

Com nove anos partiu para o Brasil, toda a Corte a fugir das Invasões Francesas e daí para a frente foram acontecimentos uns sobre os outros, desde os locais - no Rio de Janeiro -, a tudo o que se pode dizer que «mexeram e fizeram mexer», pela Europa fora.

Portanto este romance, posto em cima dos meus desenhos, das paredes que foram "afrescos" (como se diz no Brasil), paredes do que pode ter sido um "boudoir" portalegrense (?), não é uma diversão/divergência neste post, mas mais sintonia:

A lembrar a leveza e a frescura de um jardim, uma certa alegria que se ia vivendo, com - e ao mesmo tempo -, vários e imensos dramas, que, em simultâneo, estavam a acontecer.

Comparado com os nossos dias?

RE: Nada de novo! A única diferença parece ser a falta de comunicação instantânea, que hoje atravessa o Globo, e antes não existia:

Em que a "globalização" - como se deixou em Monserrate - era já uma realidade que por isso, propositadamente, ficou impressa em vários paramentos do Palácio de Sintra...

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*E dizemos que terá sido coberto por tinta plástica, já que as películas secas, ou as placas inteiras que se vão retirando das paredes, da 2ª camada - castanha cor de chocolate, que serviu para homogeneizar a base (para pintar de branco); os resíduos que se vêem no chão, agora com o calor, foram libertando um forte cheiro a plástico... Será Acrílico, ou mais PVA? Talvez, dado o cheiro...

**Quanto à Decoração, desde o Décor de Vitrúvio - que queria significar conveniência – a palavra, desde então nunca deixou de evoluir. Decoração também significou Paramentação (a mais adequada para cada situação), daí as paredes serem muitas vezes referidas como paramentos.

Depois a palavra Decoração referiu-se a  ornamentos, ornatos e ornamentação - quase com o mesmo sentido; mas talvez por estes serem mais soltos (i. e., mais parciais e menos «integrais», na obra). É este o sentido que se pode encontrar explicado no Dictionnaire critique d'iconographie occidentale (Rennes, P.U.R., 2003, dir. Xavier Barral i Altet).

Exactamente para a palavra Ornamento, e com informações vindas também de Georges Hersey, e das razões filológicas que este autor aponta, como tendo estado presentes nas obras edificadas.

Aqui aproveita-se para lembrar que a construção muitas vezes funcionou como um tropo (equivalente a um adjectivo), com um sentido moralizante/edificante, que a maioria das pessoas desconhece. Mas que esteve relacionado com as formas criadas e optadas, para cada um dos estilo arquitectónicos. [Coisa antiquíssima, maneira de pensar típica da Idade Média, que criou o que designamos por "edículas apologéticas".]

Por fim, e ainda a propósito do nosso padrão decorativo, já com Ernest Gombrich no seu livro - O Sentido de Ordem - novos significados são dados aos motivos decorativos (como se fizessem entrar ordem e regras, nos ambientes e nas imagens criadas). Sejam esses motivos soltos (e únicos), ou repetidos a formarem padrões.

Assim, a este autor devemos - pelo menos o registo e a descrição de como funcionavam - as principais ideias (do século XX?) relativas a Decoração e Padrões.

Em suma: toda uma conceptualização, sempre cada vez mais longe do sentido inicial de Conveniência (antigo, «homérico») dado por Vitrúvio.

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